Se me dissessem que a Serenata ia ser como foi, provavelmente eu não ia gostar. Mas a realidade ultrapassa a ficção...
No primeiro ano, eu acreditava firmemente que, na então futura e longínqua Serenata de Queima do 4º ano, ia fazer o que algumas pessoas fazem: sentar-me nas escadas da Sé Velha, à hora do almoço ou a meio da tarde, e esperar, pacientemente e imbuído do mais puro espírito académico, pela que seria a minha última serenata, que teria um simbolismo especial. Se não fosse assim, não teria hipótese de assistir em condições porque a Serenata é sempre aquele momento alto descrito por Vergílio Ferreira numa carta a Sandra - e todos lá estão...
Por isso, se me tivessem avisado, se eu tivesse ido à bruxa ou ao Prof. Djambé e eles me tivessem prevenido que eu teria uma oral nesse dia; que seria na Via Latina, e não na Sé Velha; e que eu não chegaria a entrar no recinto, eu rogaria pragas à vidente, ao Prof. Karamba, ao Destino, enfim, aos culpados por essa desgraça.
Afinal, aconteceu tudo isso e não deixou de ser uma das melhores serenatas a que já fui - senão a melhor - e manteve todo o seu significado.
A oral era do trabalho do Feminismo e a SARIP não se deu mal. Tive pena de não poder assistir à oral do Daniel, que deve ter sido interessantíssima, dadas as expectativas que levantava um trabalho muito singular...
Mais um jantar da SARIP, com febras acabadas de grelhar e um arroz excelente, tudo regado com um maravilhosos Adegueiro (fresco não é tão mau...e, fresco e misturado com gasosa FALC, então é do melhor...) Louvores ao Daniel, nosso cozinheiro de sempre (aí está também uma boa hipótese de emprego quando acabarmos o curso. E se abríssemos um restaurante?...) Em fundo, em vez de música, um programa alternativo: ver o Zoolander pela 658ª vez... o filme é incrível, já tinha reparado no pormenor do "Slash" mas nunca tinha pensado muito nisso: os "Slash", "Barra" em português, aquela categoria mista, híbrida, de actores / (barra) modelos, que não são bem uma coisa nem outra - por oposição aos verdadeiros modelos, raça de puro sangue, como o Zoolander e o Hansel.
Ao final do jantar apareceram a Ângela, a Brígida e a Cláudia com duas sobremesas deliciosas...elas deliciaram-se (?) com o último filme de S. Martinho...
Lá pelas 10:30 / 11, hora de sair. Antes disso, pegámos uma vez mais na bola - e apareceu uma ideia peregrina: Porque não viver o espírito do Euro2004 em noite de Serenata?
A magia da bola no país do futebol! Saímos para a rua com a bola nos pés, ninguém diria que ficámos em último na fase de grupos do Torneio de Futsal da FEUC! Descemos a Bernardo de Albuquerque até à Cruz de Celas, seguimos pela rua do ISMT, só agarrámos à mão quando o declive se tornou demasiado acentuado. De resto, sempre bola no chão! Quem precisa do Figo e do Ronaldo para fazer anúncios?...e o povo correspondeu! A magia apareceu no ar - em noites de Queima isso já acontece, de qualquer forma - e o pessoal pedia a bola, "passa!, passa!", dois ou três toques, bola de novo p/ nós, "Viva o Euro!" gritávamos, "Viva o Euro!", respondiam, só os grupos de meninas "bem" é que não se deixavam contagiar, "ai que me assustei!", "vão jogar para outro lado!", com aquele tom de desprezo de quem se sente muito acima da ralé.
A Praça, em noite de Serenata, sendo o ponto de encontro de toda a gente, tem um ambiente muito característico, de festa. Que melhor sítio, plano e largo, para continuar a viver o Euro2004 e a contagiar os adeptos?...entre toques, passes rasteiros e pelo ar, bola na cabeça, joelho e calcanhar...ficámos por lá quase meia-hora.
Monumentais. Não, não. Nem pensar nisso. Não queriam mais nada? 125 degraus a dar toques? Estais loucos? Foi á mão e foi muito bem.
Ou melhor, não foi nada bem porque nos perdemos das mulheres - que estavam connosco na Praça. Ainda esperámos um bocado... com tudo cheio de capas negras não era fácil identificar fosse quem fosse...mas de qualquer forma aqui fica, em nome da SARIP, um pedido de desculpas pelo abandono a que as votámos.
Pouco depois encontrámos o caloiro António, que tinha combinado encontrar-se com o seu padrinho Daniel para traçar a capa. Ele falou-me de algo que já suspeitava - a pecuária também existe do outro lado da Serra dos Candeeiros, embora em menores proporções - mas mais interessante é os resíduos seguirem, sem tratamento, para o Alviela e portanto para o abastecimento de água a Lisboa...e ambos concordamos num ponto, que pode parecer estranho mas é bem real: as duas encostas da Serra é como se pertencessem a dois planetas diferentes, estão muito distantes embora pareçam próximas. Espero que o caloiro aproveite bem o tempo que lhe resta em Coimbra.
Um mar de gente junto à Porta Férrea.
23:30. Devem estar quase a abrir a porta.
23:45. Como é muita gente, se calhar abrem aos poucos...
00:00, hora de início. Porta fechada. Mas o que se passa? A chuva miudinha fustiga o pessoal, mas ninguém arreda pé. Está na hora, como é?...
00:20. O rumor: a Porta Férrea funciona como saída de segurança e ninguém vai entrar. Ora bolas! E agora? Como a Andreia tinha dito que ia tentar entrar pela outra porta, de Minerva, resolvemos tentar.
Logo de seguida percebemos que seria inútil e que não teríamos Serenata. Montes de pessoal a fazer o caminho inverso ao nosso. "Que se passa? A porta está fechada?" "Está tudo cheio de gente, ninguém entra..." Que panorama assombroso. As escadas apinhadas, a rua do Pratas cheia de gente, muitos a protestar em surdina... que mais fazer, senão dar largas ao nosso descontentamento?
Bem, havia que deixar aquele ambiente deprimente. Todo aquele desporto havia-nos feito gastar calorias e álcool. 'Bora ao Couraça!
A rua do Pratas está ligada à Couraça por umas escadas bastante íngremes, a fazer lembrar Alfama. E vem de novo a magia da bola! Escadas abaixo...levo o entusiasmo do Euro até ao fundo da questão...sem me lembrar do declive acentuado da Couraça!
Quando lá cheguei, nem sinais de bola...ainda procurámos debaixo de 2 ou 3 carros...perguntámos a um pessoal que vinha a subir... tinha esperança que eles não a tivessem visto. Mas viram! "A esta hora já está no Mondego..." Porque é que não a apanharam é que não faço ideia. Mas paciência. Ir buscá-la estava fora de questão...fiquei deprimido durante um bocado, mas o pessoal apoiou-me e aquilo passou.
O Couraça, onde eu e o Daniel havíamos feito uma escala excelente no nosso percurso para a Serenata da Queima 2003. Entrámos...e saímos logo depois: cheiíssimo e muito quente. Caga nisso, vamos mas é pr'ás...pr'ás...pr'ás raves!
A Cabra, a Cabra de todos nós, marcava 00:50 quando chegámos às Faculdades.
Antigamente, as raves eram de acesso aberto. Emfim, ao ar livre. Ora, que surpresa para mim ao ver uns tapumes no Pátio das Químicas - "5 euros para entrar!" O quê? mas qu'é esta merda? O som é o mesmo, do lado de fora ou de dentro, porque os 100 decibeis das colunas são uns cortes do caraças e não respeitam os limites da área de dança... encontrámos, pouco depois, não só a Andreia e amigas, mas também a Pandilha, ou melhor a Super-Pandilha, como o Reinold lhe chama, porque agora são mais de 10...e ficámos a observar o ambiente...(e a dançar, só não dançava quem não quisesse...)
Bem, até já nos tínhamos esquecido da sede mas ela voltou, o Adegueiro já tinha mais de 3 horas. Eu, o Reinold, o Daniel e a Andreia fomos ao Pinto. Talvez houvesse lugar...
Era óbvio que o Pinto tinha que estar a abarrotar. Conseguir entrar já foi bom. Apesar de tudo, não demorou até termos uma garrafa de traçado. Ou melhor, uma garrafa de 7up com um pouco de vinho para dar gosto.
Abancámos nas escadas que dão para o largo da Sé Nova, a observar o movimento.
Em noite de Serenata, seja na Via ou na Sé Velha, a Alta não é a mesma. Transfigura-se, assume contornos estranhos...O ambiente humano é único. Tanta gente...aquele checo da FEUC, de Erasmus, cambaleando...gritos, risadas, música, festa. Se não fosse assim, que piada é que tinha?
De volta ao centro, à rave das Químicas.
O Danish comenta: parece que há muita gente, mas não há. Conheço quase toda a gente..." Bem, ao fim de 4 anos, é natural que assim seja.."pá-á"...
Não era preciso mais música que a que havia, não era preciso mais nada. O povo diverte-se na rua. O Gilberto envolveu-se num debate acalorado com um desconhecido sobre a DG, as noites do Parque e o Património móvel da Associação, que é de todos...foi cantada novamente aquela música "Ô Luís-Dá cá o chave"... foi testada a elasticidade e resistência dos arbustos da Faculdade de Medicina...depois apareceu a Liliana, que tinha estado a chorar por motivos obscuros mas já lhe tinha passado, já estava muito alegre...Como estaria o ambiente do lado de dentro da rave? estaria tão animado como o lado de fora?
Lá p/ 03:30 estava sentado no chão, mesmo no meio da estrada (coisa que não posso fazer todos os dias) a debater o milagre da vida com a Liliana e o Reinold - isto porque olhei para o chão e vi que no intervalo das pedras da calçada nascem pequenas ervas, nas quais nunca tinha reparado precisamente porque nunca me tinha sentado naquele local. E achei impressionante como é que, num ambiente dominado e moldado pelo Homem, a Natureza continua a ter uma palavra a dizer - e como a Vida sobrevive nas condições mais estranhas e adversas que podemos imaginar... aquelas ervas dão-nos uma lição de vida!...
'Bora para casa, que há Multimédia às 11 e não se pode faltar - isto já não é a palhaçada do primeiro ano...
Conclusão
As expectativas de alguns terão saído frustradas. Cá por mim, acho que, muitas vezes, na maior parte das vezes, não conseguimos negar a nossa natureza, mesmo que assim o queiramos. E por mais complicado que seja. E, se calhar, até é bom que assim seja...não sei...
Durante a noite o pessoal estranhou ver-me em pensamentos profundos, a olhar para a Cabra...não estava a pensar em nada de especial, apenas estava consciente que se tratava de um momento único. Pode não ser a minha última Serenata como estudante, mas é como se fosse, até já tenho a cartola...podem-me dizer que as serenatas são todas iguais - mas não é verdade que Coimbra tem mais encanto na hora da despedida?
...e além disso...VIVA O EURO2004!!!!

1 Comments:
É este espiríto que falta cá... :(
A descriçao estava excelente e senti-me quase cm se estivesse "on the spot"!
Mais uns meses e (parafraseando o texto da Bençao das Pastas de que sou co-autor, portanto não é plágio!) "encontramo-nos na fila do Centro de Emprego..."
12:05 PM
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